Te guardei

Tristeza…

Fim de tarde. Dia banal, terça, quarta-feira. 

-Garoa, fininha, cortante, persistente, com alguns relâmpagos de catástrofe futura.

Resolvi andarAndar e olharSem pensarsó olhar:

Projeções:

E amanhã, e depois?

E trabalho, amor, moradia?

O que vai acontecer?

Típico pensamento

-Nada-a-ver:

Barquinho na correnteza, Deus dará. Resolvi andar. Andar e olhar. Sem pensar, só olhar: caras, fachadas, vitrinas, automóveis, nuvens, anjos bandidos, fadas piradas, descargas de monóxido de carbono. Da praça.

“Não digas ‘Eu sofro’.

Que é que dentro de ti és tu? / Que foi que te ensinaram/ que era sofrer?

“Mas não conseguia parar. Surdo a qualquer zen-budismo, o coração doía sintonizado com o espinho. Melodrama: nem amor, nem trabalho, nem família, quem sabe nem moradia – coração achando feio o não-ter. Abandono de fera ferida, bolero radical. Última das criaturas, surto de lucidez impiedosa da Big Loira de Dorothy Parker. Disfarçado, comecei a chorar.

Quem me consola? Quem consola você, que me lê agora e talvez sinta coisas semelhantes? Quem consola?

Troquei os óculos de lentes claras pelos negros ray-ban – filme. Resplandecente de infelicidade, eu subia. Dor sem glamour, de gente habitando aquela camada casca grossa da vida. Sem o recurso dessas benditas levezas de cada dia – uma dúzia de rosas, uma música de Caetano, uma caixa de figos.

Comecei a emergir. Comparada à dor delas. Fui caminhando mais leve. Depois, um amigo me chamou para ajudá-lo a cuidar da dor dele. Guardei a minha no bolso. E fui. Não por nobreza: cuidar dele faria com que eu me esquecesse de mim. E quando ele perguntou “porquê?”, compreendi ainda mais. Falei: “Porque é daí que nascem as canções”. E senti um amor imenso. Por tudo, sem pedir nada de volta. Não-ter pode ser bonito, descobri. Então te guardei na minha lembrança ….

C.F.A Autor